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Mostrando postagens de Novembro, 2012

NOSTALGIA E EMPATIA

Eu tenho um costume um pouco incorreto. Quando entro numa livraria com tempo (ter tempo sobrando não é algo comum na minha vida) eu pergunto pelo livro que estou lendo, o atendente me traz e me sento para lê-lo. De fato, nunca senti nenhum tipo de constrangimento ou remorso por fazer isso, mas hoje uma sensação inusitada me ocorreu. Eu lia Amuleto de Roberto Bolaño, num estado de imersão absoluta, foi aí que uma sensação acompanhada de uma pergunta me tirou totalmente a concentração – será que a pessoa que vai comprar este livro terá o mesmo apreço pela obra que eu tenho? Tentei me colocar no lugar dela para saber se a leitura será tão significativa como estava sendo para mim. Cheguei a entristecer pensando que talvez ela o leve mas nem abra e o deixe jogado num canto da casa até as traças carcomerem-no. Há tantos livros adquiridos por pessoas que passam por livrarias apenas para querer parecer... famoso wannabe!! Cheguei a pensar que para comprar um livro a pessoa devia responder a …

O JOGADOR - DOSTOIÉVSKI

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A cena acima é uma das mais marcantes de Amadeus (filme ganhador de 8 Oscars, que retrata a jornada do compositor austriaco Wolfgang Amadeus Mozart) no fim de sua vida, para pagar suas dívidas, o compositor aceita uma encomenda anônima para uma composição, enfraquecido pela febre reumática e não podendo escrever, pede ajuda ao seu "inimigo" Saliere e dita um requiém sem saber que havia sido encomendado pelo próprio Saliere para o funeral de Amadeus. O indignante nesta história é que Saliere se apropriou dos direitos do requiém e somente depois de algum tempo foi reconhecido por estudiosos como composição de Mozart pelas características sonoras.

A história do livro O Jogador, de Dostoiévski se parece um pouco com a do músico. Solitário, endividado, muito doente e tendo que sustentar a família do irmão recém-falecido, o escritor ditou, em 1886, este livro para sua secretária, Anna Grigórievna, com quem se casaria em seguida. Não deve ter sido tarefa fácil para Anna, afinal a…

SEM NENHUM TÍTULO

E o que eu temia foi justamente o que aconteceu... Ontem a noite foi longa, eu diria que quase interminável, a angustia que você gerou com aquele monte de mensagens baixas, me xingando gratuitamente deixou meu corpo cansado por não dormir, mas minha mente alerta, pensativa e criativa. Dormi cedo, mas meu sono não passou da meia-noite. Teremos mais uma noite juntos, só que eu aqui com a cabeça fervilhando e você... bom você eu não sei, provavelmente em algum bar, fazendo o que faz de melhor, fugindo da realidade que a persegue. Viver neste estado de inquietude dói, tenho que dizer que se esse era seu objetivo pode comemorar, está doendo de verdade, mas já passei por isso e sei que passa. Quando estamos doentes a sensação é que a vida inteira tivemos aquilo e que não vai acabar nunca, mas acaba, uma hora acaba e quando acaba é como se tivéssemos uma felicidade reprimida, que vem toda de uma vez, como uma barreira de contentamento que se estoura e nos preenche. Mas essa mesma perturbaçã…

O EU SOZINHO

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Embora a palavra EU seja a mais individualista de todas, existem muitos tipos de EUs - o EU como Ego da psicologia, o EU lírico da literatura e até o EUnuco da música rsrsrs. Hoje vou me deter num EU um tanto desprezado pela nossa cultura - o EU sozinho. O EU sozinho é um estado de espírito que surge geralmente em momentos de percalços emocionais. É  quase que uma obrigação que o destino nos impõe. Daquelas coisas nada agradáveis, mas imprescindíveis ao crescimento pessoal. Neste estado, a capacidade de auto observação acentua-se, sozinhos, conseguimos ver com mais clareza o que realmente tem valor para nós, é na solidão que nossa essência se fortalece. Tampouco consigo imaginar a criatividade surgindo no meio da confusão de grandes grupos. Inegavelmente é a solidão que constrói as grandes obras e é ela que traz as profundas reflexões. Solidão em boa dose é igual a crescimento. O que dizer da admiração que nutrimos pelos monges que vivem isolados em locais inóspitos? A certeza que ali h…

O noivado dos meus melhores amigos

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Meus melhores amigos noivaram. Teve até aliança, aquela coisa toda.
Eu sei que para a maioria das pessoas isso não é nada demais, mas para mim foi.
Foi por dois motivos, primeiro porque foi a primeira vez que pessoas tão próximas a mim noivam e talvez isso tenha gerado o segundo motivo - no momento em que eles me contaram muitas coisas passaram na minha cabeça. Aquilo me abalou de verdade. No bom sentido, talvez.
Sempre fui contra o que é convencional, é quase uma neurose que tenho - se todos fazem eu não vou fazer. Acredito que isso na maior parte das vezes me levou a bons caminhos, mas a sabedoria do meio termo também pode ser útil em alguns momentos. E com a convenção do casamento não é diferente, talvez o que eu questione internamente seja o formato da instituição. Não é possível que o mundo tenha dado tantas voltas e a forma como as pessoas se relacionam afetivamente seja a mesma da época de Cristo. As relações mudaram. Patrão e empregado não se tratam mais da mesma forma, as re…

Lygia Clark

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Lygia Clark, uma das mais importantes artistas brasileiras está com uma belíssima retrospectiva no Itaú Cultural. Lygia fez parte de um momento que considero o mais brilhante da nossa arte, a década de 50, o Neoconcretismo, tinha como companheiros de time - Helio Oticica (com quem trocava muitas cartas, expostas no livro Cartas Lygia Clark - Helio Oiticica), Ligia Pape, Mira Schendel, Flávio de Carvalho, Ferreira Gullar e outros. 
Além da idéia de interação com a Arte que Lygia difundiu muito bem com sua série de "Bichos", ela teve sempre a intensão de explorar os sentidos ao limite, gerando tanto sensações agradáveis como opostas.
O vídeo abaixo "Baba Antropofágica" demonstra claramente essa relação com os sentidos, que são tão fortes para aqueles que vivnciam a experiência como para quem simplesmente a assiste.



Do outro lado

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Quase todos nós nascemos com uma especialidade - encontrar tantos defeitos na nossa vida a ponto de pensarmos que somos a pessoa mais desgraçada deste planeta. Esta especialidade costuma trazer outra - acharmos que toda vida alheia é superior à nossa. Dentro desse panorama, o meio termo seria alguém de fora observando sua própria vida.
Pois bem, neste cenário, proponho o seguinte exercício. Observar sua própria vida como se estivesse vendo a vida de outro. Aproveitemos o que temos de mais preciso em relação à vida alheia e pessoal - o Facebook.


Comece a analisar o seu próprio perfil como se você estivesse vendo os capítulos da vida de um desconhecido. Observe com detalhe suas fotos, passeie pelos seus posts, check-ins, reviva as viagens que fez... Veja como sua vida não é esse estorvo que quem está emocionalmente envolvido com os problemas pode pensar. Observe como são vastos os momentos felizes e o quanto você pode se orgulhar e ao mesmo tempo agradecer pela vida que tem. Mas se mesm…