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Mostrando postagens de Março, 2011

AMOR SEM FIM - IAN MCEWAN

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Trecho do livro Amor Sem Fim, de Ian McEwan que acaba de ser reeditado pela Cia Das Letras.
Mais um para a lista das próximas leituras.

Compare a precisão do texto com o que acontecerá no vídeo.

"É fácil precisar como começou. Fazia sol, mas estávamos debaixo de um carvalho que nos protegia parcialmente das fortes lufadas de vento. Ajoelhado na grama, eu segurava um saca-rolhas enquanto Clarissa me passava a garrafa — um Daumas Gassac de 1987. Esse foi o momento, naquele exato instante foi espetado o alfinete no mapa do tempo: estendi o braço e, quando o gargalo frio e o invólucro metalizado tocaram a palma da minha mão, ouvimos um homem gritar. Voltamo-nos para o outro lado e vimos o perigo. Ato contínuo, comecei a correr em sua direção. A transformação foi total: não me lembro de deixar cair o saca-rolhas, de me pôr de pé, de tomar alguma decisão e nem mesmo ouvir as palavras de cautela lançadas por Clarissa em meu encalço. Que idiotice, correr para essa história e s…

O QUE VEIO PRIMEIRO?

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Há um tempo eu estava interessado em escrever sobre infelicidade nos relacionamentos conjugais. Lembrei do início do filme Alta Fidelidade no qual John Cusack na primeira cena expõe uma reflexão sobre a influência da música pop na dor produzida pelos relacionamentos. Tentei achar o filme em algumas locadoras para transcrever este texto, mas não tive sucesso. Minha única opção foi buscar diretamente na obra que deu origem ao roteiro, um livro homônimo de Nick Hornby. Resisti a lê-lo pois minha primeira experiência com o escritor inglês através do seu livro Como ser legal  não tinha sido muito feliz. Mas como eu queria muito escrever aquele artigo tive que lê-lo. Gostei tanto da leitura que desisti do texto e escrevendo uma crítica sobre o livro. Entretanto, aquela passagem de Alta Fidelidade nunca saiu da minha memória e a exponho agora como forma de perpetuar e compartilhar algo que gosto tanto.  

“O que veio primeiro, a música ou a dor? Eu ouvia a música porque estava infeliz? Ou e…

O VELHO BURGUÊS

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Vem aqui, vou te contar uma coisa. Talvez você não entenda tudo agora, mas é muito importante que saiba. É para a sua vida. Amanhã os americanos estarão aqui. Ah se eu pudesse manipular o tempo... Eu o pararia. Isto tudo está me partindo ao meio, eu precisava de um pouco mais de tempo para pensar. Quem sabe se eu lhe contar tudo as coisas se esclarecem na minha cabeça.  A gente é sempre meio individualista mesmo, não tem jeito. Está vendo aquele quadro ali? Sim, este mesmo. Lindo não? Parece obra da nobreza. Foi ele que começou tudo, meu pai. Nós éramos muito pobres, pobres como a Maria. A Maria que cuida das roupas, sabe? Sim, esta mesmo. Eu acho até que ela mora aqui em casa. Pois ouça bem, passamos por vários momentos difíceis. Mas ele era um homem de muita fibra. Nunca se entregou. Sabe aquela música? “Deixe a vida me levar...” não era a dele. Até porque se fosse, ainda estaríamos morando nos escombros. Mas assim como ele, eu pensava que quando tivéssemos dinheiro tudo se resolver…

NEM SEMPRE SE VÊ

Chove de todos os lados. Lá de fora, o vento frio parece aquecer as brasas que você deixou por aqui. Tento escrever na inútil tentativa de transferir, através das palavras, pelo menos um pouco do sofrimento. Dói por dentro. Não quero que me veja como vítima, simplesmente responsável, um responsável ingênuo que agiu sem levar em conta as tramas que o psiquismo é capaz. Não consigo conceber que o medo do devir possa ser tão presente. Mas ele existe, e esta aí! Para mim é claro que o que é para ser vivido tem que ser vivido agora, o por vir não se sabe. E se morrermos amanhã? Prefere hesitar a agir. Mas o erro é todo meu. Cada ato para lhe agradar, só fez crescer o medo de tudo dar errado outra vez. O prazer produziu dor e a dor o medo. Esta é a vida, com seus tortuosos caminhos, com suas infinitas possibilidades e com seus , quase sempre previsíveis rumos. E nela ficaremos, um para cada lado, permitindo que o medo vença a possibilidade de que algo maior aconteça.