MAIS UMA DO GALERA

Tenho tanta coisa para dizer que não sei por onde começar. Comecemos pelo fim, como muitas histórias são contadas. Hoje li as últimas páginas do último livro do Galera que me faltava - Mãos de Cavalo. Isso me deu uma certa tristeza, a ponto de eu protelar um pouco esse final lendo mais devagar as partes finais e aproveitar ao máximo os últimos instantes. Agora terei que aguardar a próxima publicação para ler algo novo dele, uma pena.

Mircea Eliade dizia que para você poder opinar sobre um autor você tem que ter lido toda a sua obra. Apesar de já ter escrito outros textos sobre o Galera (1, 2) acho que agora posso dar meu veredicto final.

Não é porque Galera tem a mesma idade que eu, cresceu na mesma cidade que eu e torce para Grêmio, há algo mais forte que faz o que ele escreve reverberar em mim. Quando leio seus textos tenho impressão que ele estudou minha vida para escrevê-los. Pode parecer exagero, mas já ouvi muitas amigas me dizerem que tem a impressão que a Jane Austen rouba seus pensamentos.

A primeira coisa que li do Galera foi um conto de um livro de coletâneas dos principais autores brasileiros que publicaram nos anos 2000 - Geração 00. Comprei esse livro, pois meu professor de contos, Marne Lucio Guedes, tinha uma participação lá. O conto falava de um nadador que segundo ele era o melhor nadador de braço sem palmar de todos os tempos. E mesmo com o velho não falando quase nada, ele conferia ao velho uma sabedoria plena . Tornando um simples nadador de uma academia num sábio ancião asceta.



Ele é a encarnação de uma verdade muito escorregadia. Seu silêncio, disciplina, elegância de movimentos, humildade e total ausência de vaidades são facetas de um tipo grandioso e muito raro de resignação diante do destino. O Velho Branco lembra de tudo e antevê tudo. Ele sabe que vai morrer e sabe que nem o entendimento mais profundo da vida nos poupa de experimentá-la. Ele sabe que podemos contemplar infinitos caminhos e escolhas alternativas para a vida que nos acontece, mas que no fundo há apenas um caminho e que nossas escolhas são inevitáveis, e que essa visão permanente, latente, de tudo que poderia ter sido ou poderá ser não passa de uma história que contamos para nós mesmos. 


    
Minha identificação começou ali, pois nado desde criança e quem nada em piscinas públicas ou de clubes já viu essas figuras inusitadas que frequentam estes ambientes, apesar de jamais ter criado essa atmosfera ao redor deles. O fascinante do texto e depois fui descobrindo isso em todos os seus livros era como ele transformou um acontecimento corriqueiro, que passa praticamente despercebido aos nossos olhos, em algo mágico e repleto de significado. O segundo livro que li, foi Barba Ensopada de Sangue que acontece em Garopaba, cidade vizinha à Ibiraquera onde meus pais tem casa e onde assim como Galera morei por uns 6 meses quando acabei o colégio. Neste livro o personagem principal é um professor de educação física que fez um IronMan em Kona no Hawaii. Eu já pensava em um dia terminar essa prova e tenho certeza que o livro deixou aquilo mais forte na minha cabeça para que um ano e meio depois eu conseguisse completar o feito. Numa viagem li Até o dia em que o cão morreu e a identificação aconteceu com o relacionamento afetivo do personagem. Depois veio a vez de Cordilheira que unia duas paixões minhas - Buenos Aires e o ar misterioso da arte que Roberto Bolaño imprimi em seus livros. Depois descobri que de fato, ele usara Bolaño como referência para escrever o livro. Recentemente, li seu primeiro livro de contos Dentes Guardados e emendei em Mãos de Cavalo. Neste último por sinal, o personagem é um alpinista, esporte que tem chamado cada vez mais minha atenção e que pretendo futuramente me dedicar mais.

A identificação não acontece apenas com os fatos, mas com as sensações descritas. Quando eu era criança, tinha uma sensação que alguém estava filmando a minha vida o tempo todo e que um dia faria um filme dela. As vezes eu chegava em casa e fazia até uma revisão - hoje eles filmaram isso, aquilo... Daí achei isso no Mãos de Cavalo.

A maldita câmera que era sua única amante. Como uma esposa traída que, movida por um insight feminino, telefona para o trabalho do seu homem no exato momento em que ele está metendo por trás na secretária sobre a mesa do escritório, a câmera imaginária que era a companheira de Hermano também tinha um sexto sentido infalível e detestava ser substituída. Às vezes a câmera surgia nos instantes cruciais de sua existência, às vezes captava a realidade de momentos banais e solitários, quando estava correndo em Ipanema e começava a chover, quando descia do ônibus e entrava pelo portão da frente do colégio, quando andava de bicicleta em alta velocidade.

Tenho umas discussões com meus amigos sobre qual das Artes produz maior impacto em nós. Alguns argumentam que é o cinema por explorar mais dos nossos sentidos, outros que é a música que é contemplada inúmeras vezes, diferentes das outras Artes. Na minha opinião, nada gera tanta mudança como a leitura de um bom livro. A sensação da leitura permanece dentro de nós, é levada para a vida e de fato muda nossa cabeça. O que senti nesses últimos dias que lia os livros do Galera é que comecei a achar mais esse significado mágico nos acontecimentos do meu cotidiano, abri minha percepção para acontecimentos que passavam despercebidos, posso mesmo dizer que houve uma expansão da consciência. Apesar da Literatura ser a Arte das palavras é difícil achar as palavras que expressem essas sensações. Sentirei falta desse estado, talvez eu releia algum livro se a abstinência for muito forte.    

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