UM ERRO DE ESCRITOR

Um defeito que o escritor não pode ter é ser apegado ao que escreve. Eu sei disso e tenho que reconhecer que melhorei muito, mas é que quando a gente cria algo que gosta, mesmo sabendo que não se encaixe perfeitamente no contexto é difícil apagar.

O texto abaixo era o começo de um conto que estou escrevendo, mas como em contos não temos espaço para desenvolver demais os personagens, terei que tirar esta parte. Com este sentimento de apego pelo que escrevi resolvi publicá-la. Servirá como conhecimento do personagem, mas talvez até isto seja uma desculpa para justificar minha falta de coragem em simplesmente jogar fora.



Vem aqui meu filho, o vô vai contar uma coisa muito importante. Talvez você não entenda tudo agora, mas é fundamental que saiba. Amanhã os americanos estarão aqui. Ah se eu pudesse manipular o tempo... Eu o pararia. Isto tudo está me partindo ao meio, eu precisava de um pouco mais de tempo para pensar. Quem sabe se eu lhe contar tudo as coisas se esclarecem na minha cabeça. Está vendo aquele quadro ali? Sim, este mesmo. Lindo não? Parece obra da nobreza. Foi ele que começou tudo, seu bisa. Nós éramos muito pobres, pobres como a Maria. A Maria que cuida das roupas, sabe? Sim esta mesmo, ela mora aqui em casa inclusive. Passamos por muita coisa difícil. Mas ele era um homem de muita fibra. Nunca se entregou. Sabe aquela música? “Deixe a vida me levar...” não era a dele. Até porque se fosse, ainda estaríamos morando nos escombros. Mas assim como ele, eu pensava que quando tivéssemos dinheiro tudo se resolveria. Imaginava que as coisas seriam mais tranqüilas e que viver seria sinônimo de prazer. Mas não é assim viu! E é bom que você saiba disto logo. Não se iluda meu filho, a vida não vai te poupar de nada.
Por mais contraditório que possa parecer, a medida que vamos acumulando dinheiro, prestígio e poder as coisas vão piorando. É sério! De tão complexos, os problemas se tornam insolúveis. E vou te dizer uma verdade meu filho - a vida não tem solução. Ela é o problema em si, um nó que não se desata. E enquanto houver dentro de nós algum alento o nó Górdio, estará lá. Isto não é ruim, entenda, uma vez eu li um livro que dizia - se você não têm preocupações tome cuidado, você deve estar doente. Precisamos dessas dificuldades, mesmo, a acomodação nos faz perder a forma. Viver é manter-se produzindo.
Sim, você está pegando o espírito da coisa. Também me pergunto isto - se o dinheiro não traz o que esperamos porque lutamos tanto por ele? Todas as pessoas querem o que nós conseguimos, lutam, se preocupam demais, mas foi só depois que conquistei tudo, que parei para me questionar se era isto mesmo que eu desejava. Não posso negar, o dinheiro é capaz de dar, viagens, saúde, conforto, olhe o seu quarto por exemplo, seu computador, seu colégio, a nossa segurança. Quando era jovem, eu olhava para os endinheirados e pensava “como deve ser querer algo e imediatamente poder ter. Não precisar consultar nada, não fazer nenhum esforço a mais.” Não sei bem se durante minha vida toda eu busquei os bens ou somente esta sensação.
E de uns tempos para cá percebi que o que não se equilibra nesta balança é o custo deste esforço para se ter tudo. Será que não conseguimos viver com menos e termos mais tempo para nós? Ficando juntos, em casa. Este A Mais é que é o ponto. É ele que transforma a almejada liberdade em prisão. Talvez, este A Mais seja a parte inconsciente do enriquecimento. Afinal não é o desejo, mas o medo que produz o A Mais. Não entendeu? Tá bom, vou explicar melhor. Quando não temos nada, sofremos muito. Você sente bastante medo e é capaz de qualquer sacrifício para não passar por tudo aquilo de novo. Sim, o medo, medo da dor, medo do frio, da fome, do abandono. Medo da morte. Claro, o pai de todos – o medo da morte. Antes eu pensava que era a vontade de viver que nos estimulava, mas não. É o medo de desaparecer, sim, é ele que me faz ficar acordado à noite pensando nos problemas da empresa, é ele que me faz levantar antes do sol nascer e nem hesitar em ficar na cama, ele que me mantém ativo aos 74 anos.

Comentários

  1. Muito bom, Dani!
    Nao vi qual parte que tu se aprofundou muito no personagem.
    Parabens!
    beeijos

    ResponderExcluir
  2. Má se fosse um romance estaria ok, mas para um conto há muita digressão.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A História do trabalho

O Peso Real de Paulo Guedes

A psicologia do MEDO