ILUSÃO SEM ALMA

O livro de Eduardo Giannetti, A Ilusão da alma - biografia de uma idéia fixa, acaba de ser lançado e já está nas gôndulas dos mais vendidos nas principais livrarias brasileiras. Comprei-o porque vi o autor palestrando num evento sobre educação e gostei bastante. O livro conta a história de um professor, especialista em Machado de Assis, que ao passar por uma cirurugia de retirada de tumor, começa a questionar o propósito da sua existência. Com isto, faz um mergulho profundo no que existe de mais moderno na ciência a respeito das relações existentes entre cérebro e mente. Após apresentar todas as suas reflexões sobre o que aprendera com esta imersão, o personagem provoca-nos - "Refute-me se for capaz!"



Então vamos lá. O que escritor tentou, foi criar um romance no qual ele insere um tema científico, para não ficar aquela coisa maçante de livro técnico. Por tanto, teremos que fazer duas análises: primeiro do conteúdo literal e em seguida do técnico.


Se existe algo vital para a boa Literatura é credibilidade. Quando um personagem é criado, quem lê, tem que acreditar que ele exista, mesmo que seja num universo paralelo, mas existe. Pois o professor de Giannetti, em nenhum momento se parece verossímil. Aparenta ser fruto de um intelecto exibicionista do autor que se gaba em pôr palavras difíceis durante toda a narração. Em nenhum momento consegui acreditar, que nem mesmo alguém que dedica a vida a ler Machado de Assis, pudesse se expressar daquela maneira. A trama parece estar ali apenas como ferramenta para passar o conteúdo. Embora isto pareça uma justificativa perdoável, não é. A boa Literatura é por tradição, o fim em si mesma, e jamais o meio. Penso o que Dostoievsky, ou mesmo Machado, os dois tantas vezes citados pelo autor, pensariam de alguém que usa a sua Arte apenas para passar uma mensagem. Eles devem estar se revirando no caixão. 

Mas então se é o conteúdo o que interessa, à ele. A teoria apresentada pelo autor tenta demonstrar que a relação existente entre mente-cérebro na qual os pensamentos é que determinam o funcionamento deste órgão é uma grande falácia. O que hoje a ciência tenta provar é que nossas atitudes nada mais são do que consequências de liberações endócrinas geradas por este órgão. Resumidamente, a conclusão é que vivemos numa ilusão ao pensar que temos livre-arbítrio, quando de fato tudo não passa de "eventos eletroquímicos do cérebro". A demonstração mais autêntica da supremacia deste órgão sobre o comportamento humano é apresentada pelo autor a partir de um caso ocorrido nos EUA no qual um homem casado, pai de família, começa repentinamente a ter acessos libidinosos. Torna-se um habitué, de casas de massagem e passa a visitar sites de pornografia infantil.  Quando sua esposa descobriu que ele vinha molestando a filha, Joseph F. (nome fictício)  é  julgado e condenado a um programa de reabilitção para pessoas com desvio de conduta sexual.  Entretanto, ele é banido do programa por assédio sexual às mulheres da clínica e o juiz ordena sua prisão. Na noite antes de ser preso tenta violentar uma mulher e após o abalo, sente forte dores de cabeça e busca socorro num hospital local. O exame de ressonância revelou que ele possuía um tumor. Removido o tumor, Joseph F. sentiu que voltara a ser quem era: perdeu a obsessão por sexo e o vício da pedofilia. Obrigado pela justiça a retomar o programa de reabilitação, conseguiu levá-lo a bom termo. A mulher o aceitou de volta, mas cerca de um ano depois da cirurgia veio a recaída. Ele sabia que não poderia agir daquela maneira, mas sua vontade por sexo o vencia. Novos exames detectaram que o tumor havia retornado e assim que foi novamente retirado seus desejos voltaram a se amenizar. 

Se Giannetti ler esta crítica poderá argumentar que minha defesa à existência de algo imponderável, como a consciência, não difere em nada dos inquisitores  da Idade Média que obrigaram Galileu a  admitir que a Terra era o centro do Universo. Por outro lado, poderei mostrar que , tal como acontece agora, os cientistas contemporâneos de Newton tinham certeza que conseguiriam prever o futuro e descobrir todos os mistérios da existência - "basta adicionar algumas casas decimais aos resultados já obtidos." A.A. Michelson

No livro O Universo Autoconsciente o físico Amit Goswami conta a parábola de Guernica, um ser estranho saído do quadro de Picasso que pede ao autor para levá-lo "àqueles que determinam o que é real", os cientistas, afim de que ele possa encontrar sua consciência. O primeiro grupo que eles abordam é dos físicos quânticos que mesmo diante das evidências de que a nossa consciência interfere em experimentos quânticos preferem negar este fenômeno e os encaminham aos psicólogos. Estes por sua vez, convencidos pelos métodos de Pavlov de que mente-cérebro são como um computador, consideram a consciência como algo semelhante a unidade central de processamento, o centro de comando do computador. Questionados sobre a possibilidade de se chegar a uma explicação sobre todo o nosso desempenho de entrada-saída em termos de atividade dos circuitos do computador, então, o que parece, a consciência é desnecessária, admitem que a psicologia cognitiva ainda não está pronta para a consciência, nem mesmo para defini-la. Então se direcionam para os neurofisiologistas (cientistas do cérebro) que não admitem que exista livre-árbitrio. Para eles,  tudo não passa de uma ciranda aleatória de átomos. Outros cientistam explicam que se a consciência existe, ela faz parte de outro mundo, é como um epifenômeno. Se Guernica em sua busca pela consciência encontrasse Giannetti, ele não  daria esperanças ao nosso amigo - algo abstrato, não pode interferir num sistema concreto. Se existe alguma relação, é o cérebro que produz estímulos que posteriormente são transformados  em pensamentos.
Confesso que durante a leitura, me peguei discrente de tudo. Considerando a vida apenas como uma sucessão de fatos inevitáveis. Apesar de imensa admiração pela ciência, não consigo compactuar com esse dogma. O que vivencio é que, embora os testes científicos não consigam detectar, existe sim, algo que se enreda na existência, e que deve ser nossa verdadeira essência. Algo que  está acima do meu cérebro ou dos meus pensamentos. Certamente, muitas das minhas atitudes são frutos de  estímulos cerebrais, não posso negar isto, mas há algo mais interno, algo como uma voz que, embora não seja sempre seguida, o tempo me acompanha em cada decisão que tomo.

Chegamos ao impasse. Tal como A ilusão da alma demonstra a ciência só acredita naquilo que consegue ver. Tal como o cientista que negou a existência do átomo até que foi levado para um laboratório e olhou no microscópio, mas só teve certeza do que viu quando a bomba de Hiroshima explodiu.  No entanto, mesmo sem conseguir mensurar, podemos negar a existência dessa voz que nos fala o tempo todo? A ciência considera o cérebro o centro de tudo, pois o máximo que consegue chegar com seus métodos de mensuração é nos pensamentos, mas os pensamentos não são a consciência. E este engano é milenar.
Como explica o pesquisador Mircea Eliade, "há milhares de anos os indianos já analisavam  os elementos constitutivos da experiência humana, com o intuito de distinguir aqueles que com a morte, abandonam o homem, daqueles que são "imortais" pois acompanham a alma em seu destino além-túmulo."  É fato que os pensamentos e o cérebro ficam, mas a consciência, aquilo que no fundo somos é perene. Então ele completa "...é imposssível passar ao largo de uma das maiores descobertas da Índia: a da consciência-testemunha, a consciência desembaraçada de suas estruturas pscicofisiológicas e de seu condicionamento temporal." 

A ciência continuará por quanto tempo negando a existência da consciência? De fato, isto não tem tanta implicância para nós pois estamos o tempo todo ligados a ela e como disse Madame de Stael, “A voz da consciência é tão delicada que é fácil ignorá-la. Mas também é tão clara que se torna impossível iludi-la”

 

Comentários

  1. Dr. Ídolo, mais um excelente texto...parachoks!

    Abaixo, segue o pedacinho de um texto que fiz sobre o que acredito ser a consciência, baseado em leituras e vivências que tenho:

    A consciência é como um ser independente, presente e instalada dentro de nós. Os "deslocamentos" que temos dela, nada mais são do que os "buracos" construídos na nossa existência. E esses "buracos", são as aberturas que nos permitem ultrapassar os próprios limites, os responsáveis pela própria constituição da nossa consciência, transformando-se constantemente, através do tempo, da espontaneidade, das intenções, vivencias, criações. O nosso corpo é a ligação que temos com o externo, o que torna possível a consciência, através da intenção que temos ele, sendo impossível separá-lo dela.

    Beijo

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

A História do trabalho

O Peso Real de Paulo Guedes

A psicologia do MEDO