ALTA FIDELIDADE

" Já ouvi colegas escritores dizerem que não conseguem ler enquanto estão trabalhando num livro prórprio, por medo de que Tolstoi ou Shakespeare os influenciem. Sempre tive a esperança de que eles me influenciassem, e me pergunto se teria aceitado de maneira tão feliz ser uma escritora se isso tivesse significado que não poderia ler durante os anos que podemos levar para completar um romance."    Francine Prose - Para ler como um escritor



Acabei de ler Alta Fidelidade do Nick Hornby. Eu já amava o filme, mas depois do livro, acho que vou montar um fã clube. Pois bem, vou confessar uma coisa para vocês. Eu tinha uma idéia de literatura
que até me envergonho de expor, mas como ainda estou naquela fase de hipnotismo que um bom livro causa em nós, a voz do narrador ainda está na minha cabeça e posso ser um pouco Rob Fleming o personagem principal deste romance e não me envergonhar de pensar besteiras. Mas voltando a minha visão da literatura, eu lia muitos livros técnicos sobre assuntos variados e quando pegava um romance achava que este estilo era apenas uma história que deveria me ensinar de forma lúdica algum assunto determinado. Eu ia lendo e me questionando o tempo todo - O que estou aprendendo com esta história? SIC. Pobre de mim, mas acho que estou me salvando, de verdade. E o Nick me ajudou bastante.

De fato, a literatura séria não se propõe a ensinar algo, se não expor a condição humana nas suas mais diferentes nuances. Afinal, o que eu teria para aprender com Rob se ele mesmo se descreve desta forma .

"Minha genialidade, se puder chamá-la assim, é combinar toda essa carga de medianidade numa estrutura compacta única. Eu diria que há milhões como eu, mas não há, na realidade: muitos caras têm um gosto musical impecável mas não lêem, muitos caras lêem mas são gordo demais, muitos caras são simpáticos ao feminismo mas têm barbas idiotas, muitos caras têm um senso de humor como o Woody Allen mas se parecem com Woody Allen. Muitos caras bebem demais, muitos caras se comportam de modo idiota ao dirigirem um carro, muitos caras se metem em brigas, ou ostentam seu dinheiro, ou tomam drogas. Eu não faço nenhuma destas coisas, sério; se me dou bem com as mulheres não é por causa das virtudes que tenho, mas por causa das sombras que não tenho."

Mas como aprendi... E isto é o mais incrível desta Arte, você acaba conhecendo pessoas que não existem, mas que são como você e que passam por situações que você também passa e que às vezes nem percebe.  Você torce por elas e elas deixam que você espie um pouco da vida delas. É incrível a relação que se estabelece entre leitor e obra. E por fim, como aprendemos sobre nós mesmo quando ouvimos as histórias dos outros.

Comentários

  1. Muito legal! ;-) Mas acho que o aprendizado ocorre, sim; não que seja premissa da literatura séria (não é), mas uma característica do leitor perspicaz, aquele que tira aprendizado de todas as situações, mesmo não estando preocupado com isto -- pois está acostumado a "ler" o Mundo.

    Parabéns e continue "lendo" assim... rs

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  2. Lindo.. preciso dizer que você tem escrito tão bem ultimamente! Não que não escrevesse antes rsrs, mas tem sido mais fácil acompanhar seu raciocínio.. muito legal.. e tenho adorado os posts! Este em especial e o da Sophie!
    Bjos com saudades.

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  3. To adorando seus artigos e seus pontos de vista! Virei fã!!! Bjos Pati C.

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  4. Uma das coisas que mais me encanta na literatura e poder viver, sentir, ouvir de realidades com as quais eu nunca travaria contato se não fosse por um livro. Isso me encanta e me faz viver muitas coisas, mesmo que eu exista efetivamente apenas neste tempo e espaço.
    Gostei muito =)

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