O poder das idéias


Sempre me intrigou o processo pelo qual uma idéia, que surge de apenas um indivíduo, muitas vezes sem expressão na sociedade em que vive, consegue tomar o mundo e interferir na vida de bilhões de pessoas.

A forma como toda idéia nasce é no mínimo curiosa, e o processo pelo qual a pessoa transforma algo extremamente subjetivo em algo concreto, dá a nós, seres humanos, um poder que antigamente atribuíamos apenas aos deuses. Entendendo melhor este processo, aumentamos a probabilidade de realizarmos tudo o que desejamos.

Quando o que está latente na mente de um indivíduo se concretiza, tornando-se algo tangível, passa a influenciar outras pessoas de diversas formas, elas poderão tocar, sentir, ou até comprar este pensamento-matéria. O fruto da imaginação que se tornou real passou por um grande procedimento que vai desde o insight de criatividade até o contínuo esforço para ver o que se imaginou compartilhado com todos. Inicialmente a idéia é realidade apenas dentro do imaginário do seu criador, quando se concretiza passa a existir para todos. Isso é fascinante, pois mostra que a realização dos nossos sonhos é a mais perfeita ligação que existe entre o mundo subjetivo e o objetivo.

Para entender todo esse andamento pelo qual ela passa, desde seu surgimento até a sua concretização, precisamos compreender que o universo em que vivemos não é plano e formado apenas pelos objetos e seres que o compõem. Ele é um espaço vasto e altamente complexo composto a partir da sobreposição de vários planos, que serão todos visitados pela idéia. Do mais denso ou bruto para o mais sutil ou desenvolvido, seguem listados abaixo:

- Plano físico denso: é formado por toda matéria tangível. Por ser o mais perceptível, induz as pessoas menos sensíveis a pensarem que ele é o único existente. O mundo mineral parou sua evolução neste nível.

- Plano físico energético: é constituído pela energia sutil quevida aos seres. Essa energia é muito conhecida pelas filosofias orientais, no hinduísmo ela recebe o nome de prána, na filosofia chinesa recebe o nome de shi. Uma de suas definições proposta pelo escritor DeRose é que prána é qualquer forma de energia desde que manifestada biologicamente. Alguns exemplos da manifestação do prána são: o calor, o magnetismo, a eletricidade, etc. O mundo vegetal conseguiu ao longo da evolução aproveitar-se deste tipo de energia para gerar o que chamamos de vida.

- Plano emocional: é um plano gerado a partir do conjunto de emoções existentes nos seres animais e no cosmos. Dentro dessa gama de possibilidades temos desde as emoções mais densas como ódio, medo e inveja até as mais sublimes como o amor, satisfação e o prazer.

- Plano mental: formado pelos pensamentos, associações intelectuais e todos os processos que chamamos de racionais. Os seres humanos por terem desenvolvido este plano mais do que as outras espécies, conseguiram se destacar de todos os outros animais.

- Plano intuicional: este plano é acessado em raros momentos pelos humanóides, sendo que as mulheres o acessam com mais facilidade que os homens. O ser humano ainda não se desenvolveu a ponto de poder viver neste estado de consciência, que é o mais sofisticado de todos que foram expostos até aqui. Estamos presos e identificados com nossos pensamentos e emoções, que por sua vez obstruem a vivência da intuição linear, uma intuição contínua. O máximo que conseguimos vivenciar são lapsos de intuição que aparecem e fogem durante nosso dia-a-dia.

- Plano monádico: aqui habita nosso verdadeiro EU, aquilo que realmente somos está contido neste plano, que na verdade é também o gerador de consciência para todos os demais.

Pelas leis naturais, os planos mais densos vão sempre obstruir os mais sutis. As estrelas permanecem no céu o tempo todo, mas a luz do sol, mais densa, nos impede de vê-las durante o dia. Para entender isso no aspecto humano, vejamos alguns exemplos.

O casal se conhece na festa com muita agitação e movimentos de dança (físico), no entanto, eles querem se conhecer melhor, trocar carícias e afetos (emocional), para isso precisam parar o plano mais denso, que neste caso é o físico, para vivenciar o emocional mais sutil.

O plano das emoções por sua vez é mais denso e por isso eclipsa ou dificulta o funcionamento do mental. Ninguém pode tomar uma decisão importante quando está emocionado. Você deve ter ouvido a expressão, “não tome decisão de cabeça quente”.

O mundo intelectual também eclipsa as intuições que são mais sofisticadas que as análises mentais e esse é o motivo principal pelo qual não conseguimos manter uma continuidade em nossas intuições que acabam por aparecer apenas como flashes raros. Nós fomos treinados desde a infância para pensar, analisar, julgar. Isso impede que uma manifestação mais desenvolvida de nossa consciência que é o plano da intuição apareça.

Por fim, por conta de todas essas camadas que fazem parte do universo, ficamos impedidos de conhecer aquilo que realmente somos, nosso verdadeiro EU, que habita o plano monádico. Este fica eclipsado por todas as outras manifestações do cosmos. Pela baixa consciência que possuímos de tudo isso, passamos a nos identificar com nosso corpo, sentimentos, pensamentos, intuições, mas jamais com aquilo que realmente somos. Não conhecemos verdadeiramente a chispa de vida que possuímos e que habita o plano mais sutil e sofisticado do universo que é o monádico.

Voltando ao plano das idéias, uma delas quando surge não é por conta de associações mentais ou conclusões. Idéias que revolucionam e que realmente farão a diferença brotam como lampejos desta manifestação mais que perfeita que é o nosso SELF. Chega-nos através de um lampejo de intuição. Quando não são rejeitadas pelo mental, com pensamentos comoisso é bobagemouisso não é possível, se fosse alguém teria pensado e feito”, são entendidas pelo intelecto. Depois um envolvimento emocional participa do processo, e por fim, se coloca energia e ação até que a idéia se concretize no plano da matéria.

Vejamos um exemplo em um grande movimento que foi a criação do sistema filosófico - político-econômico do marxismo, que influencia hoje a vida de bilhões de pessoas. Aqui não está sendo julgado o quanto esse movimento agrega valor ou prejudica a vida das pessoas, o que impressiona é a dimensão que a idéia de uma pessoa tomou.

Quando Karl Marx desenvolveu sua tese, era um inexpressivo escritor, que assim como seus contemporâneos Balzac e Dostoievski, vivia da venda de artigos para jornais e às vezes passava fome. Marx havia sido expulso de sua terra natal, a Alemanha, por defender idéias contrárias às que imperavam na época. Chegou à União Soviética como um humilde jornalista e passou a observar profundamente o êxodo rural e a industrialização, e a tentar prever quais seriam as conseqüências disso no longo prazo. Não havia estudo ou pesquisa nas quais ele pudesse confiar, a industrialização era algo recente e ninguém sabia onde isso iria parar.

Embora boa parte das suas previsões não tenha se concretizado, suas idéias tomaram corpo e motivaram revoluções em vários países. Ele teve um lampejo (monádico - intuicional) e criou sua obra-prima, O Capital, que é lida e estudada até os dias de hoje. Este filósofo morreu praticamente como um desconhecido, no entanto, hoje é impossível falar de economia mundial ou história sem citar seu nome. Ele deixou idéias que foram lidas e entendidas (mental) anos depois de sua morte por intelectuais como Trotski e outros que começaram a difundir esses conceitos entre a população. Começou-se um envolvimento (emocional) cada vez maior dos operários com essa nova forma de pensar, até que não houve mais como conter esse movimento e a conseqüência foi a Revolução Russa (físico denso e energético) na qual, os Bolcheviques tomaram o poder em 1917.

Esse processo de insight - entendimento intelectualpaixãoação – concretização, pode ser todo executado por uma mesma pessoa como é o caso da criação do avião por Santos Dumont. Este nio brasileiro participou de todas as etapas da sua invenção, desde a idéo por Santos Dumont que participou desde a idual-paixia inicial, passando pela elaboração do projeto, até sua concretização. Neste caso, o que chama a atenção é que ele não apenas inventou um objeto, mas mudou a natureza humana que a partir daquele momento passou a dividir os ares com todas as aves.

Como simples mortais que não ambicionam tanto como Marx ou Dumont, mas que desejam realizar melhorias para o mundo, devemos antes de qualquer coisa estar atentos a lampejos de lucidez que nosso interior insiste em enviar e não fazer a burrice de barrar isso com bloqueios intelectuais do tipo que foram expostos no texto. Se você sentir que a idéia despertada realmente se encaixa com sua vocação, valores e princípios saiba que vale a pena lutar por ela. Depois disso vem a parte do envolvimento e da paixão, começando por entender melhor a idéia no plano racional e a namorá-la no plano das emoções. Dificuldades farão parte da jornada, mas quando amamos de verdade nada nos separa. Naturalmente virá a vontade e a energia para agir, insistentemente a até que o objetivo se concretize.

O autoconhecimento vai permear todo o processo, desde uma ligação mais estreita com os planos mais sutis, monádico e intuicional, passando pelo mental, no qual a capacidade de foco e concentração será imprescindível para o profundo entendimento do assunto. A capacidade de se conhecer também será útil para sabermos o que realmente toca nossos corações e nos emociona, quando isso acontece podemos nos encantar e envolver intensamente. Daí vem a ação e a auto-superação até ver tudo o que se quer se concretizar, transferindo a realidade subjetiva para o mundo concreto.

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